Existe o nível de excelência comum, e existe o nível de Arturo Benedetti Michelangeli. Sua exigência com a mecânica do instrumento era tão alta que ele cancelava concertos na última hora se a umidade da sala alterasse minimamente a resposta das teclas. Viajava com o próprio piano e o próprio afinador.
Isso não era capricho. Era uma necessidade para o que ele se propunha a fazer: extrair do piano texturas que desafiam a lógica.
A referência desta semana é Michelangeli tocando o Livro II dos Prelúdios de Debussy.
Debussy não queria linhas retas. Queria evocar vento, névoa, água, luz. Para isso, Michelangeli usava os pedais de uma forma que ia muito além de sustentar o som, ele trabalhava com o meio-pedal e o quarto de pedal, misturando harmonias e criando uma nuvem de ressonância onde as notas flutuam antes de desaparecerem.
Observe como o som nunca é agressivo, mesmo nos momentos de maior volume. O ataque das teclas é camuflado. É uma aula sobre como o refinamento no micro-detalhe separa uma boa execução de uma obra de arte.
Reserve alguns minutos e ouça prestando atenção às camadas de som: o que está na frente, o que está atrás, e o que paira no ar entre as duas.
Boa escuta!
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