Caderno de Escuta #03: A ilusão de fazer uma máquina de percussão cantar

Mecanicamente falando, o piano é uma máquina de percussão. Martelos de feltro batem em cordas de aço sob tensão. Por uma lei imutável da física, o som começa a morrer no exato milissegundo em que nasce, o que chamamos de decaimento.

Como, então, é possível que o instrumento soe como uma voz humana ou um violoncelo, sustentando notas longas e conectadas?

Essa é a arte do cantabile. A referência desta semana é Maria João Pires interpretando o Noturno No. 1 em Si bemol menor, de Chopin.

Observe a melodia da mão direita. Uma nota parece se fundir com a próxima, criando uma linha contínua, sem interrupções bruscas. Essa ilusão exige um controle físico absoluto. Não se trata de usar os dedos como martelos, mas de usar a gravidade. Maria João Pires transfere o peso do braço inteiro de um dedo para o outro, controlando milimetricamente a velocidade de descida da tecla para evitar um ataque duro.

Mais do que técnica, o cantabile exige uma escuta antecipatória. É preciso ouvir a ressonância exata do fim de uma nota para saber com que intensidade a próxima deve nascer. É um diálogo constante entre o que acabamos de ouvir e o que estamos prestes a fazer soar.

Reserve cinco minutos e ouça prestando atenção exclusiva ao canto da mão direita.

Boa escuta!


Se esse texto fez sentido pra você, talvez faça pra alguém que você conhece também. Compartilhe essa escuta!

O Caderno de Escuta é enviado toda semana por Rafael Salgado. Saiba mais sobre as aulas de piano. Você leu uma edição antiga do Caderno de Escuta. Para receber em primeira mão toda semana, cadastre-se na newsletter:

Rafael Salgado - Aulas de Piano em São Paulo com professor de piano com 20 anos de docência e experiência internacional